IA Jurídica

OpenDetector da OAB: o que a ferramenta detecta e como usar

A OAB lançou em 13 de julho um verificador gratuito para documentos feitos com IA. Ele procura quatro coisas — inclusive instrução escondida dentro do arquivo. Veja o que ele pega, o que não substitui e por que apareceu agora.

Equipe NOUS Legal
8 min read
OpenDetector da OAB: o que a ferramenta detecta e como usar
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Sumário (12)

Em 13 de julho de 2026, o Conselho Federal da OAB lançou o OpenDetector — uma ferramenta gratuita que analisa petições, pareceres e pesquisas feitos com apoio de inteligência artificial e aponta o que há de errado neles.

É a primeira entrega do Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia (PNIAA), apresentado pelo presidente Beto Simonetti em junho. O plano tem cinco eixos: governança, capacitação, modernização dos serviços da OAB, defesa das prerrogativas profissionais e inclusão tecnológica.

A ferramenta foi desenvolvida pela Forlex em parceria com a OAB Nacional e está disponível em open.forlex.ai para advogados regularmente inscritos.

Este texto explica o que ela detecta, por que ela apareceu agora e o que ela não resolve.

O que o OpenDetector procura

Ele reporta quatro tipos de achado. Para cada um, informa a severidade, o trecho exato e uma correção sugerida.

Os quatro tipos de achado do OpenDetector: jurisprudência falsa, alucinação, injeção de prompt e jailbreak

1. Jurisprudência e citação falsa

O caso mais conhecido: a IA cita um acórdão que não existe, ou atribui a um tribunal uma decisão que ele nunca proferiu. A ferramenta confere as referências contra bases oficiais e aponta o que não tem correspondência.

2. Alucinação

Mais amplo que o item anterior. Cobre a afirmação inventada em geral — o dispositivo legal que não existe, o número de artigo trocado, o dado apresentado com segurança e sem lastro.

3. Injeção de prompt

Aqui a lógica se inverte, e é a parte que menos gente conhece.

Não é a IA errando por conta própria. É alguém escondendo instruções dentro de um documento para que a IA que o leia obedeça a quem escreveu, e não a você. Texto em tinta branca sobre fundo branco, corpo de fonte quase zero, caracteres de uma faixa Unicode que nenhum programa desenha.

Você abre o PDF e não vê nada. O programa que resume ou analisa aquele arquivo recebe tudo.

4. Jailbreak

Texto construído para fazer a IA contornar as próprias regras — ignorar instruções anteriores, mudar de papel, responder o que normalmente recusaria.

Como usar

Você cola o texto ou envia o arquivo. A ferramenta aceita PDF, DOCX, TXT, HTML e MD. O acesso é gratuito para advogado inscrito na OAB, pelo endereço open.forlex.ai.

O resultado vem por achado, com o trecho localizado — não é um selo de "aprovado" ou "reprovado", e sim uma lista do que merece o seu olho.

Por que isso apareceu agora

Não foi por precaução. Foi depois da conta chegar.

Bancada vazia de um tribunal ao entardecer, iluminada por uma réstia de luz

Ao longo de 2026, pelo menos seis tribunais brasileiros puniram advogados por citar jurisprudência que não existe:

Tribunal O que foi decidido
TST — 6ª Turma Multa de 1% sobre o valor da causa, com ofício à OAB e ao Ministério Público Federal
TJPR Multa milionária por precedente inexistente
2ª Vara Federal de Londrina 20 salários mínimos por artigos de lei e jurisprudência inventados
TJMG Advogada multada em julho de 2026 por decisões inexistentes
TRT da 2ª Região — 6ª Turma Multa de 5% sobre o valor da causa por litigância de má-fé
TJSC Multa por jurisprudência falsa gerada por IA

O caso do TST é o que mais desloca o problema de lugar. A multa é pequena; o ofício ao Ministério Público não é. Deixou de ser um erro processual e passou a ser um assunto com potencial disciplinar e criminal.

E a lista não para nos seis. STJ e TSE também já se manifestaram — só o TSE tem nove casos desde 2025. Levantamos o mapa completo das decisões, com os valores e as defesas que os tribunais recusaram.

As duas defesas que os tribunais recusaram

Dois argumentos apareceram nesses processos e nenhum funcionou.

"Foi o estagiário." O dever de supervisão é do advogado. A OAB/SP decidiu que sócios respondem por garantir a supervisão do uso de IA no escritório.

"Foi a ferramenta." Quem assina a peça responde por ela. Nenhum tribunal aceitou a delegação de responsabilidade a um programa.

É o mesmo princípio de sempre, aplicado a uma tecnologia nova: a assinatura continua sendo pessoal.

O que a própria OAB diz que a ferramenta não faz

A comunicação do lançamento é explícita: o OpenDetector não substitui a avaliação do profissional. Ele oferece apoio.

Vale levar isso a sério, e não como formalidade. Um resultado sem achados significa "nenhuma das técnicas conferidas apareceu" — e não "este documento está correto". Nenhuma ferramenta de verificação, nem esta nem qualquer outra, transforma texto conferido em texto responsável.

E há um limite que vale conhecer sobre injeção de prompt especificamente: ninguém sabe resolver esse problema hoje, nem os fornecedores dos modelos. O que existe são camadas que reduzem a superfície e tornam a tentativa visível. Detectar é uma delas.

Conferir depois é bom. Não criar o problema é melhor.

Aqui vale uma distinção que muda a rotina do escritório.

O OpenDetector age sobre um documento pronto. Você escreveu, a IA ajudou, e agora você confere antes de protocolar. É uma etapa a mais no fim — e uma etapa que a onda de multas de 2026 tornou necessária.

Mas existe uma pergunta anterior: por que a peça saiu com jurisprudência inventada?

Uma IA de uso geral escreve texto plausível. Quando ela não encontra o precedente, ela produz algo que parece um precedente, porque foi treinada para completar texto de forma convincente. O erro não é um acidente — é o comportamento normal da ferramenta aplicado a um domínio onde plausível não basta.

É por isso que uma IA feita para advogado precisa ser construída de outro jeito.

No NOUS, a IA jurídica não gera jurisprudência: ela busca em ferramentas que consultam fontes reais, e a instrução do sistema é literal — "nunca invente jurisprudência; use apenas o que encontrou nas ferramentas; se não achou, diga que não encontrou". Ao citar um precedente numa tese, ela precisa fornecer o link do portal do tribunal.

Não é garantia. Nada é. Mas é a diferença entre uma ferramenta que tenta acertar o texto e uma que só pode falar do que encontrou.

E, no fim de julho de 2026, acrescentamos uma segunda camada, na direção oposta: o conteúdo de terceiros que entra na IA — publicação do DJEN, texto de documento do processo — passou a entrar cercado e identificado como dado, nunca como ordem. É a recomendação da Manifestação Técnica CNIAJ nº 1/2026, do CNJ, que orienta tratar o conteúdo dos autos como dado não confiável.

Se você quiser conferir um documento sem enviá-lo

Publicamos também um auditor de injeção de prompt gratuito e sem cadastro.

Ele faz menos que o OpenDetector — não confere jurisprudência nem alucinação, só procura conteúdo escondido. Mas tem uma característica que pode importar dependendo da peça: ele roda inteiramente no seu navegador. O arquivo não é enviado para lugar nenhum, nem para nós.

Para documento sob segredo de justiça, ou peça de cliente com dado sensível, essa diferença deixa de ser detalhe técnico.

Use os dois. São conferências diferentes, e nenhuma delas dispensa a sua leitura.

Três momentos do documento e a conferência de cada um: na geração, com a peça pronta e na entrada de arquivo de terceiro

O que fazer a partir de hoje

Confira toda citação antes de protocolar. Se a IA citou um acórdão, abra o portal do tribunal e veja se ele existe. Leva menos tempo que responder a uma alegação de litigância de má-fé.

Passe as peças que chegam de fora por uma conferência de conteúdo escondido. Contestação, parecer, documento de cliente — qualquer arquivo que você vá jogar dentro de uma IA.

Não delegue a conferência a quem não pode responder por ela. A assinatura é sua, e os tribunais já disseram isso em seis decisões este ano.

E escolha a ferramenta pela origem do dado, não pela fluência da resposta. Uma IA que responde bonito sobre jurisprudência que não existe é pior que nenhuma — porque ela produz confiança sem lastro.


Fontes

NOUS Legal
Escrito por
Equipe NOUS Legal

Time NOUS Legal — produto de gestão para escritórios modernos. Conteúdo prático, baseado em dados de operação real.

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