Sumário (9)
Se você já parou diante de uma proposta sem saber que número escrever, o problema provavelmente não é falta de coragem para cobrar. É que você nunca calculou quanto uma hora sua custa.
E se já calculou, há uma boa chance de ter calculado errado — porque o erro não está na fórmula que todo mundo repete. Está em um número que quase ninguém discute.
A resposta curta
Todo honorário tem dois pisos, e vale o mais alto dos dois.
O piso ético é o valor do ato na tabela da seccional da OAB onde o serviço é prestado — em regra, a sua. Cobrar abaixo dele é aviltamento de honorários — infração disciplinar do art. 48, § 6º do Código de Ética e Disciplina.
O piso econômico é quanto o caso custa ao seu escritório. Não está em tabela nenhuma, porque depende do seu aluguel, da sua equipe e do seu tempo.
A maioria dos textos sobre o assunto cuida do primeiro e ignora o segundo. Só que o piso violado sem ninguém perceber é o segundo — e é dele que trata este texto.
O erro está no divisor
A fórmula que todo mundo repete está certa:
custo do escritório + sua retirada + margem, dividido pelas horas.
O problema é a última palavra. Quais horas?
A resposta intuitiva é "as horas que eu trabalho". E é aí que a conta quebra, sempre para o mesmo lado: para baixo.
Boa parte do seu mês não é faturável. Prospecção. A reunião com o cliente que não fechou. A proposta recusada. Administração, financeiro, banco. Estudo. Deslocamento. Nada disso entra na conta de ninguém — mas tudo isso consome as horas pelas quais você está dividindo o custo.
Dividir o custo por todas as horas espalha o custo por horas que não geram receita. O preço sai baixo, e a diferença some silenciosamente: você fecha o mês achando que teve margem.
Com números
Um escritório pequeno, números redondos:
| Custo fixo mensal | R$ 12.000 |
| Retirada pretendida | R$ 8.000 |
| Total que precisa entrar | R$ 20.000 |
| Horas trabalhadas no mês | 160 h |
A conta intuitiva: R$ 20.000 ÷ 160 h = R$ 125 por hora.
Agora a mesma conta com o divisor certo. Se 55% das suas horas viram fatura — um número conservador para escritório pequeno —, são 88 horas faturáveis:
A conta certa: R$ 20.000 ÷ 88 h = R$ 227 por hora.
Não é um ajuste fino. É quase o dobro.
O advogado que fecha um caso de 20 horas por R$ 3.000 acha que está cobrando R$ 150 a hora — 20% acima daqueles R$ 125. Na verdade está R$ 77 abaixo do custo por hora: o caso custou R$ 4.545 e entrou R$ 3.000. Prejuízo de R$ 1.545. Repetindo isso quatro vezes no mês, ele trabalhou 80 horas e faturou R$ 6.182 a menos do que essas horas precisavam render.
É por esse mecanismo que não sobra dinheiro num escritório cheio de clientes.

Como descobrir o seu aproveitamento
Os 55% são ponto de partida, não verdade revelada. O número real é seu, e medir é mais simples do que parece: por uma semana, anote em duas colunas — o que você poderia lançar na conta de um cliente específico e o que não poderia. A proporção aparece rápido, e costuma assustar.
Quem faz muita prospecção fica abaixo de 50%. Quem tem carteira estável e equipe de apoio passa de 65%. Chutar 100% é a única opção garantidamente errada.

O outro piso: a tabela da seccional
Aqui vale desfazer uma confusão comum, porque ela atrapalha na hora de pesquisar.
A tabela de honorários da OAB não é uma grade de "área do direito × fase processual". Ela é uma lista itemizada de mais de cem atos, cada um com seu valor. A da OAB-SP em 2026, por exemplo:
| Ato | Mínimo |
|---|---|
| Consulta | R$ 539,25 |
| Procedimento ordinário cível (proposição ou defesa) | R$ 6.256,51 |
| Divórcio judicial consensual | R$ 7.820,64 |
Repare na distância entre o primeiro e o segundo item. Nenhum coeficiente de "área" ou "complexidade" atravessa essa distância — são atos diferentes, com valores fixados um a um.
E há um detalhe que quase ninguém menciona: as seccionais não usam a mesma unidade. A OAB-SP publica em reais — e a OAB/AL também passou a publicar em reais na edição 2026 (os valores estão aqui). A OAB-DF publica em URH — Unidade Referencial de Honorários —, corrigida mensalmente. Um valor em reais para o DF já nasce vencido.
Por que quase toda "calculadora de honorários OAB" da internet não funciona
Junte as duas coisas — tabela itemizada, unidades diferentes por seccional — e você chega a uma conclusão incômoda: nenhuma fórmula com um número por estado consegue devolver "o mínimo da OAB" para as 27 seccionais.
O que essas calculadoras costumam fazer é pegar um valor base por UF e multiplicar por coeficientes. O resultado tem cara de tabela e não é tabela.
Sabemos disso porque a nossa fazia exatamente isso. Para procedimento ordinário cível em São Paulo, ela devolvia R$ 4.480 e exibia um selo verde de "tabela oficial". A tabela real diz R$ 6.256,51. Quem confiasse cobraria 28% abaixo do piso — e cometeria, sem saber, o aviltamento que a própria página avisava para evitar.
Reescrevemos a ferramenta em agosto de 2026 e a reconferimos em setembro. Ela mostra apenas valores que transcrevemos da fonte, com o número do item e o link, e diz claramente quando não tem a tabela de uma seccional. Um "não sei, confira aqui" é mais útil que um número inventado com selo — e infinitamente menos perigoso.
Honorário de êxito: uma faixa de referência
Não há percentual nacional para o honorário de êxito. Como referência, a calculadora usa uma faixa de 10% a 30%, que cresce com a fase:
| Fase | Faixa de referência |
|---|---|
| Extrajudicial / consultivo | 10% a 20% |
| 1ª instância | 15% a 25% |
| 2ª instância | 18% a 28% |
| Tribunais superiores | 20% a 30% |
Duas observações que evitam problema:
A divisão por fase é uma referência, não tabela da OAB. Antes de usá-la, confira o item do seu ato: as tabelas das seccionais trazem percentuais próprios, que a da OAB/AL define como média de mercado — ela indica, por exemplo, 30% da condenação ou do acordo no contrato a êxito em Juizado Especial Cível (item 1.3.2) e 30% a 50% em várias ações de consumidor. Para serviços que não estão na tabela, a OAB-SP e a OAB/AL indicam de 10% a 30% do valor econômico.
O Código de Ética põe um teto no contrato de êxito: somados à sucumbência, os honorários "não podem ser superiores às vantagens advindas a favor do cliente" (art. 50). Percentual que consome a maior parte do resultado do cliente é convite a questionamento — e a discussão sobre honorário costuma ser mais cara que a diferença discutida.
O roteiro, na ordem

1. Descubra o custo da sua hora. Custo fixo mais retirada, dividido pelas horas faturáveis. Se nunca mediu o aproveitamento, comece em 55%.
2. Some a margem. Zero significa empatar. O escritório precisa de lucro para além da sua retirada — é dele que sai contratação, equipamento e reserva.
3. Estime as horas do caso — atendimento, peças, audiências, deslocamento, acompanhamento. Multiplique. Esse é o preço que cobre o custo e entrega a margem; com margem zero, é o ponto abaixo do qual o caso dá prejuízo.
4. Confira a tabela da seccional onde o serviço será prestado e cobre o maior entre os dois pisos.
5. Formalize por escrito, especificando o que o valor cobre. Contrato que não diz se inclui recurso é contrato que vai gerar conversa difícil na fase de recurso.
Faça a conta agora
Montamos uma calculadora de honorários que segue exatamente esta ordem: primeiro o custo da sua hora, depois o preço do caso, e só então o piso da seccional.
Ela é gratuita, não pede cadastro e os cálculos acontecem no seu navegador.
Se o resultado te surpreender, ele provavelmente está certo. O desconforto de ver o número real é bem menor que o de descobrir, no fim do ano, para onde foi o dinheiro de um escritório que não parou.
Atualizado em 19/09/2026: corrigimos a referência ao Código de Ética — o limite do honorário de êxito está no art. 50 —, trocamos um item da tabela da OAB-SP que não conseguimos localizar na publicação oficial pela consulta (item 1.1), deixamos claro que a tabela aplicável é a da seccional onde o serviço é prestado, deixamos de apresentar a faixa de êxito por fase como prática de mercado — é uma referência da calculadora, e as tabelas trazem percentuais próprios, alguns acima de 30% — e retiramos a afirmação de que nenhum dado da calculadora sai do navegador.
Fontes

Time NOUS Legal — produto de gestão para escritórios modernos. Conteúdo prático, baseado em dados de operação real.
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