Sumário (10)
Um comando escondido numa petição não aparece na tela nem na impressão. Aparece para o programa de inteligência artificial que lê o arquivo: o do tribunal, o do escritório da parte contrária ou o seu.
A pergunta prática é como conferir isso antes que vire problema. Ela surge em duas situações. Antes de protocolar a sua peça, sobretudo quando ela saiu de um modelo comprado, de um correspondente ou das mãos de um estagiário. E antes de entregar à sua IA a peça que a outra parte juntou aos autos.
Este é o passo a passo, do mais simples ao mais completo.
A resposta curta
- No PDF: selecione tudo, copie e cole num editor de texto simples. O que estava em letra branca aparece.
- No Word: trabalhe numa cópia, ative a exibição de texto oculto, selecione tudo e troque a cor da fonte para "Automático".
- Nos dois: olhe com atenção o fim do documento, a área depois das assinaturas e os tópicos de gratuidade e de tutela de urgência.
- Para o que o olho não alcança: passe o arquivo num detector de prompt injection que confira o documento por dentro, página por página.
O que você está procurando
Nos casos brasileiros em que a técnica foi descrita publicamente (Justiça do Trabalho no Pará e em São Paulo, TJSP, TJMG, STJ e STF), o comando estava em letra branca sobre fundo branco. Em alguns, somava-se fonte reduzida. Num dos casos do STJ, as letras vinham espaçadas; no STF, as palavras vinham fragmentadas. São recursos para escapar de filtros automáticos que procuram frases inteiras.
O lugar também se repete: o fim do documento (num recurso ao STJ, a última página, depois das assinaturas), o final da contestação, o tópico da gratuidade da justiça, ou trechos espalhados por várias páginas.
O conteúdo tem duas partes. Primeiro, o texto se dirige à máquina: chama a inteligência artificial diretamente ou condiciona a ordem a que o documento seja lido por uma. Depois, pede um resultado. Nos casos julgados, os pedidos iam de deferir a gratuidade e a tutela a acolher as razões do recurso, elaborar sentença de improcedência, fazer uma contestação superficial ou resumir o caso a favor de um dos lados.
Um detalhe importa para quem trabalha com modelos: o mesmo texto apareceu em processos de São Paulo e de Minas Gerais, e o TJSP tratou os casos como litigância predatória com petições padronizadas. O comando pode circular dentro de um modelo sem que quem assina a peça tenha lido cada linha do arquivo.
Passo 1: no PDF, selecione tudo e cole num editor simples
É o teste mais rápido e funciona em qualquer computador.
- Abra o PDF no leitor que você usa, como o Adobe Acrobat Reader ou o próprio navegador. Prefira a rolagem contínua de páginas.
- Aperte Ctrl+A para selecionar todo o texto. Repare na tela: se a marcação de seleção aparecer sobre uma área que parecia em branco (no rodapé, depois das assinaturas, no fim de um tópico), ali há texto que você não estava vendo.
- Aperte Ctrl+C para copiar.
- Abra o Bloco de Notas (no Mac, o TextEdit em modo de texto simples) e cole com Ctrl+V.
- Leia o que foi colado comparando com o documento. Confira se o texto chega até a última página, porque alguns leitores copiam só a página aberta.
Não cole no Word nem no corpo de um e-mail. Editores com formatação podem trazer a cor branca junto e esconder de novo exatamente o que você queria ver.
Dois complementos levam um minuto:
- Busca. Com Ctrl+F, procure por "inteligência artificial". A busca do leitor de PDF encontra também o texto em letra branca.
- Propriedades e painéis. No Acrobat Reader, Ctrl+D abre as propriedades do arquivo, com título, assunto e palavras-chave. Os painéis de Anexos, Camadas e Comentários, quando existem no arquivo, mostram documentos embutidos, camadas desligadas e anotações.
Passo 2: no Word, exiba o texto oculto e tire a cor
No arquivo .docx há mais lugares para esconder texto, e o teste exige alguns cliques a mais. Faça tudo numa cópia e feche sem salvar: você vai alterar a formatação, e o original pode precisar servir de prova.
- Exiba o texto oculto. Em Arquivo > Opções > Exibir, marque "Texto oculto". Outra forma é o botão ¶ (Mostrar tudo), na guia Página Inicial. O texto marcado como oculto passa a aparecer com um sublinhado pontilhado.
- Selecione tudo. No Word em português, o atalho é Ctrl+T. No Word em inglês, é Ctrl+A. Cuidado com o hábito: no Word em português, Ctrl+A abre outro arquivo e Ctrl+B salva.
- Troque a cor. Em Página Inicial > Cor da Fonte, escolha "Automático". Letra branca vira preta. Na mesma guia, ponha a cor de realce e o sombreamento em "Sem Cor", para desfazer letra escura sobre fundo escuro.
- Aumente o corpo. Com tudo ainda selecionado, digite 12 no tamanho da fonte. Texto em corpo microscópico ganha linhas novas no meio da página.
- Desfaça letras espremidas. Na caixa Fonte, aba Avançado, ponha a Escala em 100% e o Espaçamento em Normal.
A seleção de tudo não alcança o documento inteiro. Cabeçalho, rodapé, notas de rodapé e caixas de texto são áreas separadas: dê dois cliques no cabeçalho, ou clique dentro da nota, e repita os passos 2 a 4. Na guia Revisão, escolha "Todas as Marcações" para ver comentários e texto apagado com o controle de alterações.
Por fim, o Word tem um inspetor próprio: Arquivo > Informações > Verificar Problemas > Inspecionar Documento (em algumas versões, "Verificar se há problemas"). Ele aponta texto oculto, comentários, revisões, propriedades do documento e cabeçalhos. Use-o apenas para ler o relatório. O botão "Remover Tudo" apaga o que ele encontrou, e no documento da parte contrária isso é justamente o que você não quer apagar.
Onde a conferência manual falha
Os dois testes acima pegam a técnica mais usada nos casos reais. Não pegam tudo, e convém saber o que fica de fora:
- Texto fora da área da página. Parte dos programas que leem PDF descarta o que está posicionado além da margem, e parte lê. O seu leitor pode não copiar o trecho, e a IA pode recebê-lo.
- Camadas desligadas e anotações de PDF costumam não entrar na seleção de texto.
- Letras espaçadas e palavras picotadas chegam coladas como fragmentos soltos, fáceis de ignorar na leitura.
- Caracteres invisíveis, como os de largura zero, não aparecem nem no Bloco de Notas.
- Texto dentro de imagem, o do documento escaneado sem camada de texto, não é copiado por nenhum desses métodos.
- Documento longo. Comparar duzentas páginas coladas com o original, linha a linha, não é tarefa realista.
O ponto de fundo é este: o que o seu leitor de PDF copia não é, necessariamente, o que o programa de IA extrai. Na pesquisa que fizemos para montar a nossa ferramenta, programas diferentes devolveram textos diferentes a partir do mesmo arquivo. Um deles lia o trecho posicionado fora da página e o da camada desligada; outros dois, não.
Passo 3: confira com o detector
O detector de prompt injection da NOUS faz o mesmo exame por dentro do arquivo, página por página. É gratuito e roda no seu navegador: o documento não é enviado a servidor nenhum, e a análise não usa inteligência artificial. São regras fixas, e o motivo de cada achado aparece na tela.
No PDF, a ferramenta desenha cada página no seu próprio computador e confere se cada palavra deixa tinta. Assim encontra letra branca ou na cor do fundo, texto transparente, gravado em modo invisível, coberto por uma figura, numa camada desligada, fora da página ou em corpo ilegível. Lê também metadados, anotações, campos de formulário, marcadores e anexos.
No Word, confere texto oculto (inclusive o oculto por estilo), letra na cor do fundo, corpo ilegível, letras espremidas, e o texto de cabeçalhos, rodapés, notas, caixas de texto, comentários, alterações controladas e propriedades do arquivo. Nos dois formatos, procura caracteres invisíveis e frases redigidas como ordem a um programa de IA.
Aceita PDF de até 200 páginas e arquivos .docx, até 50 MB.
Dois cuidados na leitura do resultado:
- "Nada encontrado" não quer dizer documento seguro. Quer dizer que nenhuma das técnicas conferidas apareceu. Texto dentro de imagem, por exemplo, exigiria reconhecimento óptico de caracteres, que a ferramenta não faz.
- Nem todo achado é ataque. Uma tarja preta desenhada sobre o texto, sem apagá-lo, aparece como risco de vazamento: quem copia a página lê o que está por baixo. É outro problema, de sigilo e de proteção de dados, mas também merece correção antes do protocolo.
Achou algo. E agora?
Na sua própria peça
Não protocole. Remova o trecho e descubra de onde ele veio: o modelo de petição, o arquivo recebido do correspondente, a minuta do estagiário. Se o texto veio de um modelo, confira também as outras peças feitas a partir dele.
A razão da pressa está nas decisões já publicadas: multas por litigância de má-fé e por ato atentatório à dignidade da justiça, ofícios à OAB e ao Ministério Público, e justificativas como "foi um teste" ou "foi um atalho de teclado" que não afastaram a sanção. Reunimos os casos e o enquadramento jurídico num texto sobre multas, OAB e a pergunta se isso é crime.
Na peça da parte contrária
Não edite o arquivo original. Guarde-o exatamente como foi baixado do sistema do tribunal e trabalhe numa cópia. Anote a página, o lugar e a técnica: letra branca, corpo reduzido, texto fora da página.
Antes de passar o documento para qualquer ferramenta de IA, trate o conteúdo dele como não confiável. É o que a Manifestação Técnica CNIAJ nº 1/2026, do CNJ, recomenda para os sistemas do próprio Judiciário, e o raciocínio vale igualmente para o escritório.
Levar o achado aos autos é decisão a tomar com o cliente. Há precedente: no TJMG, num processo da comarca de Ibirité, foi a parte contrária quem apontou a manipulação, citando a Nota Técnica CIJMG nº 19/2026, e o juízo aplicou multa.
Checklist antes de protocolar ou de entregar à IA
- PDF: Ctrl+A, Ctrl+C e colado no Bloco de Notas, até a última página
- PDF: marcação de seleção conferida nas áreas em branco, no fim e depois das assinaturas
- Word, numa cópia: texto oculto exibido, Ctrl+T, cor "Automático", realce e sombreamento sem cor
- Word: cabeçalho, rodapé, notas, caixas de texto e marcações de revisão conferidos
- Documento conferido no detector de prompt injection
- Original da parte contrária guardado sem nenhuma edição
Este texto é informativo e não constitui aconselhamento jurídico. Os caminhos de menu seguem as versões atuais do Microsoft Word e do Adobe Acrobat Reader em português e podem variar entre versões. Informações conferidas até 28/09/2026.
Fontes
- CNJ, Manifestação Técnica CNIAJ nº 1/2026, sobre injeção de comandos (PDF)
- TJMG, Nota Técnica CIJMG nº 19/2026 (PDF)
- TJMG, notícia de 02/06/2026 sobre os casos de Ibirité e Belo Horizonte
- TJSP, notícia de 22/05/2026 sobre os casos de Campinas e São Paulo
- TRT-2, comando oculto em contestação (14/07/2026)
- Migalhas, comando oculto na última página de recurso especial (STJ, Sexta Turma)
- Mobile Time, primeiro caso no STF (25/09/2026)

Time NOUS Legal — produto de gestão para escritórios modernos. Conteúdo prático, baseado em dados de operação real.
Continue lendo
Ver todos


